segunda-feira, 24 de março de 2014

Sem padroeiro e sem estrutura



Moradores de Santo Antônio do Descoberto sofrem com as condições precárias do serviço prestado pela administração local, como pavimentação das ruas e coleta de lixo. Para completar, a imagem-símbolo do município está desaparecida

Uma cidade sem asfalto, sem coleta de lixo, sem professores, sem merenda escolar, sem iluminação pública, sem água tratada e, mais recentemente, sem o santo protetor. Santo Antônio do Descoberto, que na madrugada da última sexta-feira teve a imagem do padroeiro furtada, carece não só de proteção divina, mas, principalmente, de cuidados essenciais à população. Ontem, o Correio percorreu o município goiano, distante cerca de 40km de Brasília, para ouvir os moradores sobre a prestação de serviços públicos, e constatou o estado de abandono. O desaparecimento da estátua representa apenas uma pequena parte do conjunto de problemas estruturais que atinge o município.

Há seis anos postada na entrada da cidade, para abençoar os visitantes, a imagem-símbolo de Santo Antônio do Descoberto, patrimônio municipal, ainda não foi recuperada. Feita de fibra de vidro, ela foi arrancada de um pedestal de quase dois metros por um carro. “É um caso que causou comoção muito grande entre as pessoas, até em quem não é católico. Comparo o sofrimento da população com a perda do cartão de visita à provação de Jesus. É como se Santo Antônio do Descoberto estivesse descoberta de sua proteção”, diz o pároco da cidade, Marcelo José Vieira.

A Polícia Civil já tem a placa do veículo e o suspeito de ter cometido o crime, mas ninguém foi preso. O prefeito, Itamar Lemes (PDT), comprometeu-se a pagar, do próprio bolso, uma nova estátua. A respeito dos outros problemas que assolam os moradores, no entanto, a prefeitura afirmou aguardar retorno dos órgãos competentes.

A cabeleireira Marilene Alves, 52 anos, mora há 40 anos no município e reclama dos buracos no asfalto, da qualidade da água que sai das torneiras e da merenda oferecida aos dois filhos na rede pública de ensino. “Desde quando arroz, feijão e farinha são merenda para criança? A situação está tão ruim que já tem até concurso para eleger o maior buraco da cidade. Fora a água das torneiras, que chega com barro”, diz. A comerciante Maria Lúcia Sousa, 37, gostaria de manifestar a indignação publicamente, mas critica a falta de união entre os moradores. “A bandidagem sempre faz questão de quebrar o que a prefeitura conserta, mas bandido não faz buraco no asfalto nem atrapalha na coleta de lixo ou no pagamento aos professores”, protesta.

Cortes

Presidente do Sindicato dos Servidores Municipais da Prefeitura, Clemilda Melquíades reclama da quebra de um acordo firmado em janeiro de 2013 que daria direito aos novos servidores da educação a receberem uma gratificação de dedicação exclusiva no valor de R$ 350, mas o benefício foi cortado, e a categoria entrará em greve a partir de amanhã. O secretário de Administração e Finanças, Salviano Martins, alega que o corte está amparado em uma recomendação do Tribunal de Contas de Goiás. Martins também afirma que a falta de merenda nas escolas foi temporária, causada por uma paralisação na licitação do novo contrato.

O ouvidor-geral do município, Luís Cláudio Cezário, afirma que, dentro de um mês, as ruas da cidade começarão a ser pavimentadas com 250 mil m² de asfalto novo. Sobre a coleta de lixo, ele confirma que alguns locais não estão sendo atendidos, mas que o serviço deverá ser regularizado até o fim da próxima semana. Segundo ele, a troca das empresas responsáveis pelo serviço causou os transtornos. A respeito da iluminação pública, ele diz aguardar o investimento de R$ 15 milhões anunciados pela Companhia Energética de Goiás (Celg) para o ano que vem. O ouvidor também espera da Empresa de Saneamento de Goiás (Saneago) mais investimentos para ampliar o atendimento à população e melhorar a qualidade da água.

"A situação está tão ruim que já tem até concurso para eleger o maior buraco da cidade”
Marilene Alves, moradora.
 
 
Fonte: Correio Braziliense

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