quarta-feira, 8 de maio de 2013

A radiografia da pobreza


Levantamento encomendado pela Sedhab detalha a precária infraestrutura no Condomínio Sol Nascente. Falta pavimentação, não há redes de esgoto e de águas pluviais e a maioria do abastecimento de energia elétrica é feita por gambiarras


Montanhas de lixo pelas ruas, esgoto a céu aberto e gambiarras por todos os lados compõem a paisagem do Condomínio Sol Nascente, em Ceilândia. Sem serviços públicos eficientes, o dia a dia dos 61 mil habitantes se torna ainda mais difícil. A desorganização dos endereços dificulta a entrega de correspondências. Atualmente, os Correios só conseguem cobrir 13% dos domicílios, e 87% dos habitantes são obrigados a buscar as correspondências e as contas em associações de moradores.

O estudo encomendado pela Secretaria de Habitação, Regularização e Desenvolvimento Urbano (Sedhab) dá uma dimensão dos obstáculos na favela (veja gráficos). Os moradores responsabilizam o sistema de coleta pela sujeira generalizada. O governo rebate e destaca a necessidade de a comunidade colaborar, não despejando resíduos em pontos inapropriados. O fato é que apenas 33% das casas contam com coleta regular e, mesmo assim, os caminhões do Serviço de Limpeza Urbano (SLU) não passam na porta. Ou seja, os moradores precisam percorrer alguns metros para garantir que o lixo seja levado.

A radiografia do Sol Nascente também explica a concentração da pobreza. Mais da metade das famílias (52%) têm renda inferior a R$ 500 por mês. Outro sinônimo de atraso é a quantidade de ligações clandestinas de energia elétrica. De acordo com o levantamento, 46% dos moradores do condomínio fazem “gatos” na rede para ter luz em casa. A falta de esgoto deixa 87% das residências com fossas sépticas.

O precário sistema de transporte público também contribuiu para o crescimento da atividade de mototáxi. Mesmo sem regulamentação dos órgãos de trânsito, o serviço é um dos mais populares da favela brasiliense. São pelo menos 15 veículos em circulação. Quem cansou de esperar por melhorias se vira como pode. É o caso do estudante Matheus Elias Barbosa, 11 anos, que vai para a escola montado em uma mula.

Em meio a tantos problemas, há quem use o próprio tempo para fazer o bem. A professora Rosimeire da Rocha Oliveira, 25 anos, dedica pelo menos cinco horas do dia para dar aulas de reforço de português a alunos carentes. Há dois anos, ela cumpre uma rotina religiosa de ensinar na sede da Associação dos Moradores do Sol Nascente. “Via muitas crianças da comunidade se envolvendo com a violência e quis contribuir para que elas tivessem um futuro melhor”, afirma.


Informal e popular
Charles (E), 34 anos, e Marcos, 30

Um dos meios de transporte mais populares do Sol Nascente é o mototáxi. Muito comum em favelas cariocas, o serviço, mesmo irregular, caiu nas graças da comunidade. Em regiões esburacadas ou com alto risco de assaltos, os ônibus não passam e os usuários têm de andar até três quilômetros para chegar em casa. Os mototaxistas improvisaram um ponto embaixo de uma árvore na entrada do condomínio para esperar os passageiros dos coletivos. São pelo menos 15 profissionais na atividade informal. O curioso é que a tabela de preços varia de acordo com o endereço do cliente. “Tem lugar que cobramos R$ 3, porque a gente corre o risco de ser roubado. Em outros, o valor é de R$ 2 por causa da distância. Em locais mais perto, o preço é R$ 1”, explica o mototaxista Charles Douglas dos Santos, 34 anos, colega de Marcos Veras Fiuza.


Na garupa da mula
Matheus Elias Barbosa, 11 anos

Na favela onde apenas 10% dos moradores têm carro, a bicicleta seria a opção viável para percorrer distâncias curtas. Mas crateras por todos os lados impedem um passeio seguro. A quantidade de roubos é outro fator que desestimula o uso do veículo sobre duas rodas. O estudante Matheus Elias Barbosa, 11 anos, desistiu de usar o “camelo” em virtude desses transtornos. Há três anos, a companheira inseparável dele é a mula Paloma. O garoto faz tudo com o animal: passear, ir à padaria e até para o colégio. “Já fui até para Brazlândia”, gaba-se. Ele conta já ter “perdido” uma bicicleta para marginais e, agora, diz que o seu “meio de transporte” é mais difícil de levarem. “Aqui, os ladrões roubam a nossa bicicleta. Cavalo é mais difícil levar”, diverte-se o menino. O animal é de de um primo. “Mas como só eu cuido dela, ele (o parente) já diz que eu sou o dono.”

FONTE: CORRREIO WEB

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