domingo, 28 de agosto de 2011

Aumento ao respeito a vida diminui execuções de pena de morte

O respeito à vida aumentou e a prática da pena de morte perdeu força nos últimos anos. Trata-se de uma tendência mundial. Segundo relatório da Anistia Internacional, entidade especializada em direitos humanos, de 724 execuções em 2009, o número caiu para 527 no último ano, uma redução de 27,2%. “Os poucos Estados que ainda usam de modo sistemático a pena de morte realizaram milhares de execuções, indo contra a tendência global de abolição da pena capital”, diz Salil Shetty, secretário-geral da Anistia Internacional. Segundo ele, muitas nações aplicam a pena de morte em casos como tráfico de drogas, roubo, adultério e blasfêmia.

A Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) adotou a terceira resolução, pedindo moratória do uso da pena de morte, apoiada por 109 países. Outros 41 votaram contra e 35 se abstiveram. A tendência do fim da pena capital se consolidou com a entrada do Gabão como a 96ª nação a renunciar à prática. Mais 43 países não punem com a morte crimes comuns. Na prática, não executam ninguém há uma década. Apesar do avanço, os dados ainda são alarmantes e a falta de informações também, especialmente em alguns países asiáticos.

Segundo a Anistia, o número real de execuções pode ser bem maior do que o das 527 execuções oficiais. A China não divulga sentenças de morte. E o Irã não confirma casos denunciados por entidades internacionais. Estimativas sugerem que as execuções na China podem chegar a 5 mil. No Irã, além das 252 execuções oficiais, podem ter ocorrido mais 300 mortes.

Ao todo, 23 países condenaram pessoas à morte em 2010. Quatro a mais do que em 2009. No Brasil, não há pena de morte. Nas Américas, só os Estados Unidos ainda aplicam a punição e, apesar de terem diminuído as execuções em 2010, ainda mantêm cerca de 3.200 pessoas no corredor da morte. Há pelo menos 17.833 prisioneiros na mesma situação no mundo.

Fonte: Folha Universal

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A juventude e o descontentamento

Por Fernando Vicário*

Os protestos dos jovens do século XXI são muito diferentes dos do século XX, não só pelos meios tecnológicos agora utilizados para convocá-los mas, principalmente, porque o que foi um dia está deixando de ser. No maio de 68 francês ou nos levantes estudantis chineses dos anos 80, reivindicava-se uma mudança profunda e, agora, o que se pede é uma solução às profundas mudanças que vem ocorrendo e que deixam os jovens sem saber que saídas lhes oferecem a continuidade. As instituições perdem força diante dos jovens. A política se desvirtuou em muitos lugares do mundo e, em muitos outros, está começando a se tornar suspeita. As religiões não são capazes de adaptar sua linguagem a um século de profundas mudanças e parecem continuar pregando no deserto. Diferente do que foi um dia, o exército já não é refúgio para ninguém. A família tradicional está mudando a uma velocidade absurda. Os empregos não oferecem a mesma segurança que há 20 anos, e a formação já não é garantia para que se encontre uma vaga no mercado de trabalho desejado. O Reino Unido, a Espanha, o Chile, a Itália e os países árabes são a ponta de um iceberg que está emergindo, e ao qual parece que ninguém está dando a devida importância. As novas tribos urbanas estão mudando o conceito de identidade e pertencimento que formaram as regras sociais do século XX.

As cidades são um quebra-cabeça cultural disperso, em torno do qual continuam se concentrando os desejos dos jovens. Hoje, não só a música como também as imagens, os videogames, as danças, as roupas e os desenhos tecnológicos formam à sua volta novos grupos e coletivos, dispostos a levar seus “fetiches” a lugares inimagináveis. Além destas novas manias se nota também um profundo desencanto com as já existentes. Seria pretensioso nos atrevermos a prever o triunfo dos que vão prosperando, mas seria tolice não darmos conta da raiz comum de todos eles: a cultura. Este espaço simbólico onde se geram novas esperanças. Esta porta que serve de entrada e saída para a memória.

Talvez, o grande erro cometido hoje em dia nas abordagens sobre o futuro, seja o de não levar em conta a presença destes movimentos, de não escutar seus gritos, de manter uma visão superficial ao invés de se colocar na pele do outro, algo imprescindível para saber fazer política. As reformas educativas continuam sendo pensadas e tratadas com a mesma mentalidade do século XX, ficando para segundo plano em todos os governos. Já as políticas culturais, não conseguiram nem mesmo sair do XIX e são deixadas ainda mais de lado em todos os países, seja na America Latina, na Europa ou no mundo Árabe. Os líderes falam de assuntos que não chegam a ser colocados em prática – e isso todos já sabemos– o importante é ter a consciência de que está em jogo um novo modelo a ser construído, mas parece que as pessoas não entendem que as peças que estão em cima da mesa agora, não são as mesmas de antes. Não valem as mesmas regras, pois este é um novo jogo. Não vale continuar falando da juventude sem escutá-la. Continuar falando da cultura, restringindo-a a museus e bibliotecas. Não vale. Porque depois, quando as nossas casas forem queimadas, as nossas lojas destruídas, os nossos bairros invadidos e a nossa confortável existência perturbada, perguntaremos: “Mas eles não tinham tudo? O que aconteceu?”.

Não, eles não têm tudo, nós nos encarregamos de destruir o que existia, os deixamos sem chão, destruímos o meio ambiente, menosprezamos a educação, pervertemos as instituições, banalizamos a mídia e corrompemos a política. A criatividade é o que lhes resta, a cultura como espaço de criação de sentido, mas parece que não queremos, ainda assim, colocar os nossos recursos à sua disposição… Depois, não podemos nos queixar.

O Brasil está em uma posição privilegiada para dar um passo a frente neste momento. Toda a America Latina e grande parte da Europa observam o país com grande curiosidade, para saber se vai fazer alguma coisa ou se nada fará. A janela está aberta para o mundo, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 fazem com que todos queiram olhar por esta janela, e todos vão olhar por ela. Os jogadores de futebol, os atletas e os esportistas, são todos jovens, não vamos usá-los somente como fonte de diversão visual… A Grécia já foi… Agora é o Brasil.

Tradução: Daniella Castanheira

Fernando Vicário – É Diretor da Empresa Consultores Culturais (Espanha), presta serviços para diversas instituições internacionais Ibero-americanas e para projetos de Cultura e Educação em países da América Latina e Europa.

Fonte: Carta Capital

domingo, 21 de agosto de 2011

Quem sabe faz a hora e não espera acontecer

Sai o mártir, o revolucionário, o contraventor da moral e dos bons costumes. O jovem de hoje começa a ter uma cara. E não é necessariamente aquela delineada pelo espírito saudosista dos anos 1960 e 1970, que imprimia uma feição majoritariamente egocêntrica à geração que fixou o olhar numa tela de computador e passou a desbravar o mundo de dentro do quarto. Rotulada de início como individualista e consumista, a juventude começa a ver e ser vista também sob outro prisma. A pesquisa “O sonho brasileiro”, realizada pela empresa de pesquisa comportamental BOX 1824 e divulgada em junho, revelou que a geração nascida em rede também quer mudar o mundo — mas quer fazer isso à sua maneira. Ela pensa no outro, mas sem deixar de mirar sua satisfação pessoal.
Segundo o sociólogo Gabriel Milanez, responsável pelo estudo, a empresa queria ser socialmente responsável e resolveu entregar para a sociedade o que sabia fazer melhor: pesquisas. “Reparamos que a primeira geração de brasileiros globalizados, que cresceram conectados, com mais possibilidades de interferir no mundo, estava agora na faixa etária de 18 a 24 anos e, ao mesmo tempo, o Brasil estava em seu melhor momento tanto internamente como externamente. Essa combinação deveria ser interessante, e foi daí que partiu o projeto”, conta. Foram feitas 1.784 entrevistas em 173 cidades para mapear esse jovem que, segundo o sociólogo, nasceu em rede, conectado com os problemas do coletivo e mais propenso ao diálogo do que as gerações passadas.
A faixa etária pesquisada não foi arbitrária. Gabriel afirma que esse grupo é o centro primário de influência na sociedade. As pessoas mais novas aspiram ser como esses jovens, ter o que eles já têm, uma liberdade maior e alguma independência financeira. Ao mesmo tempo, os mais velhos não querem ser como eles, mas se inspiram em quem tem entre 18 a 24 anos. “Eles são como antenas para captar o espírito do tempo. Daqui a 20 anos, quando olharmos para trás, lembraremos do comportamento dos jovens atuais”, explica o sociólogo.
O resultado da pesquisa trouxe algumas surpresas. A maior delas foi a relação dos jovens com a noção de coletivo. “Nos anos 1970, a ideia de sociedade era muito pautada na figura do mártir, que se doava por uma causa e podia até morrer por ela. Hoje, o jovem se preocupa com o coletivo, mas não deixa de pensar em si mesmo. Existe uma interdependência entre o bem-estar individual e o da sociedade”, esclarece o sociólogo. A socióloga e pesquisadora da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais Miriam Abramovay, que estuda a juventude, explica que toda a literatura existente sobre essa geração afirma que ela é individualista e consumista. “O jovem agora quer aparecer, ter destaque na sociedade e ser reconhecido. Quanto mais ele aparece, mais importante é”, garante. Ao mesmo tempo, ela não descarta que os jovens podem se importar com o coletivo de forma diferente das gerações passadas. “Ser jovem é querer mudar o mundo, eles podem querer romper com as regras da sociedade contemporânea, mas de uma forma mais individualista.”
Sonhos? Os possíveis!
O outro eixo da pesquisa revela o que os pesquisadores chamam de sonhos possíveis. O jovem de hoje é pragmático, quer o que é viável e o que pode ser vivenciado como degrau para outras metas. “Na época da ditadura, os ideais eram revolucionários, de grandes mudanças no futuro, tudo ia ser radicalmente diferente depois de uma grande revolução. A juventude atual cresceu em um país sem inflação e sem ditadura, então ele projeta desejos possíveis e sabe que se desejar grandes mudanças pode se frustrar”, conta Gabriel.
O trabalho também exerce grande influência nessa geração. Quando perguntados quais eram seus desejos para o futuro, 55% responderam que sonham com formação profissional e emprego. “O que a gente vê por trás disso, que é diferente dos pais, é que esse jovem está valorizando sim o dinheiro, a carreira, a estabilidade, mas a satisfação pessoal é tão importante quanto. Essa não é uma geração do ou, é a geração do e: ele quer ter estabilidade e fazer o que gosta”, explica o sociólogo Gabriel Milanez. Ele avalia que, graças à essa nova noção, a definição de sucesso também é transformada. Deixa de ser acúmulo de poder e dinheiro e se foca na estabilidade, na satisfação pessoal e na tentativa de ter relevância social pelo trabalho.
A experiência da socióloga Miriam Abramovay em estudos com os jovens mostra ainda que eles acreditam muito mais em si próprios do que os adultos. “Eles querem ter um lugar no mundo do futuro, ter profissão e reconhecimento e acham que vão conseguir. Ao mesmo tempo, são realistas e têm muito medo do desemprego”, lembra.

Por nós todos
— 67% dos jovens brasileiros discordam da afirmação de que só pensa em fazer algo pela sociedade se tiver algum benefício para si próprio
— 74% dos jovens brasileiros afirmam se sentir na obrigação de fazer algo pelo coletivo no dia a dia
— 79% dos jovens brasileiros afirmam que concordariam em usar parte do seu tempo para
ajudar a sociedade
— 76% dos jovens acreditam que o seu bem-estar depende do bem-estar da sociedade onde vive.
— 79% acreditam que família não é apenas um laço de sangue
— 90% dos jovens gostariam de ter uma profissão que ajudasse a sociedade
— 55% dos jovens sonham com formação profissional e emprego
— 77% tem intenção de cursar ensino superior
— 15% sonham em adquirir a casa própria
— 9% sonham ficar ricos ou ter estabilidade financeira
— 92% acreditam que suas ações podem mudar a sociedade
— 63% acreditam que hoje existe uma cultura global, comum ao mundo todo
— 90% acreditam que as transformações da sociedade ocorrem aos poucos
— 92% concordam que a soma de pequenas ações do dia a dia pode mudar a sociedade

Fonte: Pesquisa “O sonho brasileiro”

Juventude que transforma
São considerados pontes 8% dos jovens entre 18 e 24 anos. Nada menos que 2 milhões de pessoas que, além de fazer parte dessa geração preocupada com o coletivo, já se mobilizam para transformar a sociedade. Participam de projetos sociais e transitam entre vários grupos — família, colegas de faculdade e de trabalho, e amigos íntimos. Coletam informações desses grupos, misturam com suas próprias ideias e redistribuem o conteúdo, conectando esferas que normalmente não dialogam. Por isso, receberam a nomenclatura de pontes. São pessoas que entendem que precisam fazer sua parte e já estão fazendo, são otimistas e, por estarem se movimentando pelo coletivo, são reconhecidos como referências de pensamento.

Quem age como ponte…
- Conecta redes, pessoas, grupos, assuntos distintos;
- Transmite ideias e conhecimento de forma transversal (tocando diferentes áreas de conhecimento);
- Atua em projetos múltiplos e independentes;
- Conecta seu trabalho à relevância social;
- Abre canais para se falar sobre preconceitos;
- Busca relevância social pelo trabalho
- Cria diálogo entre comunidades, etnias, classes, disciplinas, instituições;
- Conecta a política da Esplanada dos Ministérios às suas possibilidades de política cotidiana;
- Constrói um novo tipo de participação coletiva.

Extensão para o futuro

A estudante Sinara Gumieri, 21 anos, faz parte dessa nova geração que pensa em um mundo coletivo e já está fazendo sua parte na construção do Brasil. O interesse em atuar para mudar a sociedade surgiu ao entrar na faculdade. “A gente sai do ensino médio meio preso àquela rotina de estudar para o vestibular e, de repente, estamos na universidade. Eu queria participar de algum projeto diferente, ter alguma experiência que eu nunca tive”, lembra. Logo no primeiro semestre do curso de direito, ficou sabendo do projeto de extensão Universitários Vão à Escola (UVE), que atua na educação popular com crianças em Itapoã. Participa há quatro anos. Sinara também já fez parte do projeto Maria da Penha, também de extensão, que atende juridicamente mulheres em situação de violência na Ceilândia. Só saiu por não conseguir conciliar horários com as aulas e a UVE.
Prestes a se formar, a estudante pretende dar rumo à sua carreira, tendo com base um dos pilares da extensão universitária. Quer se tornar uma profissional cidadã. “Independentemente da área, que ainda não escolhi, quero encarar minha carreira como uma trajetória social, uma carreira que tem compromissos e tem papel de me trazer estabilidade, conforto, mas que não pode ser pensada só por essa perspectiva. É importante avaliar para quem e com quem estou trabalhando, com quem estou construindo coisas diferentes, quem é que está ganhando voz nesse processo”, afirma. Sinara também pretende continuar em projetos de trabalho que envolvam diálogo com a comunidade, por acreditar que o senso de coletividade é importante.
Sinara acredita que o jovem de sua geração tem papel um transformador, pois é quem está aberto a reconhecer que o modelo de sociedade não está bom e não se acomoda diante disso. “Ele tem vontade de começar alguma coisa, não pode deixar do jeito que está”, afirma. Para ela, são pessoas que nasceram aprendendo muito rápido, com acesso à tecnologia, comunicação e informação. “Temos a chance de ser muito criativos, de fazer as coisas mais rapidamente e de forma diferente.” A estudante lembra que as redes sociais têm muita influência no jeito de ser dessa geração. Ela afirma que são locais de difusão de informações e, principalmente, plataformas que democratizaram os espaços de fala. “Talvez as gerações antes das nossas não tivessem esse costume de falar, e hoje vemos uma série de espaços que garantem esse direito. Não garante que alguém te ouça, mas acho importante praticar a fala, o ouvir e a discussão de ideias.”
Quanto ao futuro do país, a estudante é otimista e acredita que o Brasil pode mudar para melhor. “Espero que o Brasil veja que pode ser muito mais do que é, que possa ser mais ousado nas transformações e politicamente mais engajado, com uma visão de política diferente, cotidiana. Não é só votar de quatro em quatro anos, mas sair às ruas, ir atrás do que queremos”, afirma. Na opinião de Sinara, as mudanças na sociedade não devem vir do governo, e sim de mobilizações populares. Para ela, é a população que deve fazer um controle do que o governo faz ou não e deve fazer suas próprias mudanças para montar uma grande transformação. “As soluções não estão com a gente, precisamos trabalhar com a comunidade para que os saberes populares e acadêmicos se unam. Assim, dá para levantar soluções e a comunidade pode resolver seus problemas”, afirma a estudante.

O corpo social

O sonho do engenheiro agrônomo Orlando Batista, 23 anos, para o Brasil é de desenvolvimento e educação. “Espero que o país consiga crescer principalmente na área rural e diminuir a criminalidade, prezando a educação. Quando o jovem é bem preparado e tem estrutura, se torna a força, a cabeça e os braços da sociedade”, afirma. Orlando concorda com os resultados da pesquisa “O sonho brasileiro”: para ele, cada um tem que fazer sua parte para mudar a sociedade. “Como diz uma música dos Engenheiros do Hawaii, ‘é fácil fazer o milésimo gol sentado na frente da televisão’.” Segundo o jovem, o maior problema do país é mesmo a corrupção, e ela não fica restrita ao plano político. “Hoje, a gente vê que cada um rouba o que pode: do funcionário da xerox que copia páginas de livros para os filhos aos políticos que desviam dinheiro público”, afirma.
Para fazer sua parte, Orlando trabalha com um assentado na região de Alto Paraíso. “A ideia é promover a região e criar uma identidade geográfica do trigo e café que plantam lá, fazer com que os produtos sejam únicos e reconhecidos”, conta. Para ajudar os agricultores que não têm verba disponível para comprar fertilizantes, o engenheiro agrônomo fez seu trabalho de conclusão da graduação sobre o uso da urina humana como fertilizante. Além desse trabalho com assentados, Orlando participa do projeto DV na Trilha.
Há dois anos, o engenheiro agrônomo e ciclista estava pedalando até Pirenópolis com um grupo, quando, parado em um posto de gasolina para descansar, teve sua atenção direcionada a um grupo de bicicletas duplas. “Lembro que fiquei admirando as bicicletas. Quando elas passaram, vi que as camisetas que os ciclistas usavam diziam ‘deficiente visual’. Não acreditei. Deficiente visual andando de bicicleta? Não é possível!” Orlando conheceu os diretores do projeto e se apaixonou pelos passeios de bicicleta com deficientes. “Eles te acolhem de um jeito muito especial. Sempre me ligam para chamar para pedalar. Para mim, é lazer, vou com todo o prazer. E como se fosse uma companhia para passear”, conta.
O trajeto depende da experiência do deficiente visual. O passeio pode ser feito em vias asfaltadas e pouco movimentadas para os novatos, e em trilhas de terra para quem já pedala há algum tempo. A deficiente visual Mariane dos Santos, 22 anos, já participa do DV na trilha há três anos. Ela foi apresentada ao projeto por um amigo e nunca mais parou. “Gosto muito de natureza e andar de bicicleta me dá uma sensação de liberdade incrível”, conta. Ela prefere os percursos de terra por serem mais emocionantes e lembra que já caiu várias vezes, mas nunca se machucou ou perdeu o ânimo. “Adoro sentir o vento no rosto e fazer trilha dá uma adrenalina incrível”, afirma. No projeto, as duplas de deficientes e condutores estão sempre mudando, mas, segundo Mariane, não é difícil fazer amizade. “Vamos criando uma afinidade com o condutor e fica cada vez mais fácil confiar nele. É uma delícia.”

Força da periferia

Raiane Azevedo, 24, é estudante e sonha em seguir o caminho do jornalismo social. Enquanto não se forma, trabalha na Central Única das Favelas do Distrito Federal (CUFA-DF). “É um trabalho que admiro muito. Aqui tentamos transformar os espaços públicos: não queremos que o jovem da periferia saia das ruas e sim torná-las saudáveis para que o mesmo jovem possa viver em liberdade”, conta a estudante.
Natural da Ceilândia, segundo ela, a primeira e maior favela de Brasília, Raiane sempre conviveu com injustiças sociais e com a falta de espaço. “Brasília é a terra das divisões, é uma cidade claramente separatista”, afirma. Vivenciando essa realidade, desde pequena luta pelos direitos das minorias, e acredita que as mudanças na sociedade não são feitas a partir do governo, e sim do povo. “Até já pensei em me candidatar a um cargo político, mas agora acredito que deve ser uma mudança diária, de concientização e de ajudar o próximo. A falta de tempo impossibilita que as pessoas sejam solidárias, mas cada um tem que fazer sua parte”, conta.
A jovem, que já foi voluntária no projeto Vida Positiva (ONG que cuida de crianças soropositivas e filhos de adultos infectados) e apresentou um programa de rádio chamado “Ação Periferia”, o primeiro a tratar do hip hop nacional, ainda quer mais. Atualmente, trabalha em projetos organizados pela CUFA-DF e pretende ajudar alguma ONG. “Não é só o dinheiro que ajuda, é preciso ir lá, botar a mão na massa, limpar o chão, ler para as crianças, agir mesmo. Acho importante dar carinho”, lembra.
O sonho de Raiane para o Brasil é que o país seja mais igualitário, com saúde, educação e segurança acessíveis para toda a população. “Acho que estamos caminhando para essa realidade. O país tem crescido, mas tem muito mais a crescer, com certeza.” Ela acredita que os jovens não são tão ativos quanto deveriam e que o papel da geração é de ter força física para trabalhar e mudar a sociedade. “O maior problema dos jovens é que são medianos. Tínhamos que assumir o protagonismo e nos dedicar mais”, afirma. Para o futuro pessoal, a estudante espera influenciar a opinião pública mostrando a realidade e mudar o pensamento das pessoas.

Agradecimentos: Box1824, IESB, Cufa- DF, DV na Trilha
Fonte: REVISTA DO CORREIO

sábado, 20 de agosto de 2011

Crack: Consumo cresce na classe média

Durante muito tempo, o crack esteve associado aos miseráveis e excluídos. O perfil do usuário era sempre o mesmo: jovens pobres, da periferia ou mesmo moradores de rua, sem instrução e com poucos recursos para deixar a situação degradante em que se encontram. Hoje, quatro anos depois que a droga invadiu a capital da República, a realidade é bem diferente. A mistura mortal de pasta de coca, bicarbonato de sódio e água devasta cada vez mais a vida de pessoas adultas, escolarizadas e com razoável padrão financeiro.

No Distrito Federal, quem procura tratamento nas unidades públicas são homens e mulheres que entraram no submundo da mais barata e devastadora das drogas apesar da confortável situação financeira. O diagnóstico é traçado por uma pesquisa inédita desenvolvida no curso de biomedicina do Centro Universitário de Brasília (UniCeub). No levantamento, foram entrevistados 100 usuários de crack que passam por tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas do DF (Caps ADs). E o dado é alarmante: mais da metade (52%) dos dependentes que procuram ajuda têm emprego fixo, com renda mensal entre R$ 1,1 mil e R$ 3 mil. Os números são a prova cabal de que o crack invadiu sim os lares da classe média brasiliense.

Outro dado que chama a atenção se refere à escolaridade. Quase 30% dos viciados em tratamento concluíram o ensino médio e 9% cursam uma faculdade. Para o autor do estudo, denominado “Caracterização da Cultura do Crack no DF”, os resultados comprovam que uma epidemia sem precedentes se instalou no Distrito Federal. “Sinceramente, as respostas me surpreenderam, pois fica claro que o crack já não respeita mais aspectos socioeconômicos, idade e nível de instrução escolar”, define o pesquisador Aurélio Matos Andrade, que passou mais de um ano desenvolvendo o trabalho.

A partir de hoje, na série de reportagens “A droga que consome Brasília”, o Correio mostra como há quatro anos o crack chegou ao DF e, diante da inércia do poder público, enraizou-se em quase todas as cidades, ceifando vidas e destruindo famílias.

Faixa etária
Os entrevistados que responderam aos questionários da pesquisa fazem acompanhamento nos Caps ADs do Guará e de Sobradinho II, os dois maiores centros de tratamento público do DF. A faixa etária das pessoas que buscam ajuda também difere do público que o brasiliense se acostumou a ver nas ruas, formado, em sua maioria, por crianças e adolescentes que passam os dias se drogando. Aqueles que recebem assistência dos psicólogos, psiquiatras e terapeutas apresentam idade mais avançada: 35% têm entre 25 e 35 anos; 30% entre 35 e 45 anos e 12% já passaram da casa dos 45 anos. Os outros 23% são formados por adolescentes e jovens na faixa etária entre 15 e 25 anos.

Na avaliação do pesquisador, a justificativa para esse cenário encontra fundamento no amparo da família. Ele acredita ainda que há muitos anos essas pessoas lutam para se libertar do vício das drogas. “Elas começaram a usar outros tipos de droga muito cedo e, agora, entraram no crack. Estão em tratamento porque possuem uma família estruturada e também porque já adquiriram experiência de vida suficiente para saber que chegou a hora de dar um basta nas drogas”, analisou Aurélio.

Para o professor Ronald Lamas, que orientou o estudo, a pesquisa reforça o que todos já sabem: o crack tornou-se um problema crônico de saúde pública que não faz mais distinção de classe social. “Atravessamos uma grande epidemia no Brasil, e, me arrisco a dizer, uma pandemia mundial. Não podemos esquecer que o Brasil teve grandes avanços, com programas consolidados nessa área, mas é fato que ainda falta muito investimento. Assistimos à descontinuidade de projetos por conta de ideologias partidárias, e isso tem de acabar se quisermos reduzir o impacto que a droga causa na sociedade”, avaliou Lemas, que é professor de biomedicina e pós-graduado em política e gestão em sistemas de saúde.

Preço baixo
A pedra de crack hoje é vendida por preços que variam de R$ 10 a R$ 20. Mas, em alguns lugares, a unidade da droga pode ser encontrada por R$ 5.

Resistência
O Distrito Federal foi um dos últimos lugares no país a ser invadido pelo crack. Até 2007, aqui era território da merla, outro produto da pasta-base de cocaína, consumido por usuários de periferia. Entre os jovens de classe média, era o ecstasy que passava de bolso em bolso para embalar festas.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

SOLIDARIEDADE: Alunos se unem para ajudar casal de idosos que vivia em condições precárias

Estudantes do Centro Educacional Adventista do Gama aprenderam uma lição que vai além do conteúdo ministrado em sala de aula, durante a última gincana cultural e desportiva do colégio. Eles fizeram um mutirão para ajudar um casal de idosos que vivia em péssimas condições. “Foi ótimo poder ajudar e ver como eles ficaram gratos. Sozinhos, acho que nunca faríamos algo assim”, destaca Guilherme Martins, 17 anos.

Ricarda Crispim da Silva, 81 anos, e Antônio Vicente, 86, moravam no Gama, em uma casa cheia de lixo no quintal, com o teto esburacado, fios de eletricidade desencapados e paredes com mofo. Como agravante, seu Antônio é diabético — precisou amputar uma perna por causa da doença — e tem catarata em estado avançado.

Na semana passada, a escola uniu forças para ajudar o casal. Os alunos espalharam a ideia pela comunidade e, no dia seguinte, começaram a reformar a casa com a ajuda de pedreiros voluntários. Cerca de 300 estudantes revezaram-se na reforma, acompanhados de vizinhos, professores, pais e famílias inteiras. Eles contaram com doações de material de empresas locais e de moradores da cidade. No domingo, a casa já estava pronta para o casal comemorar o Dia dos Pais.

Lucas Felipe, 16 anos, ficou com as mãos calejadas do trabalho, mas com um sorriso no rosto. “Eu já tinha um pouco de experiência nessa parte de obras, mas também ajudei a pintar e a fazer outras coisas. Acho que, além de tudo, estamos praticando a palavra de Deus — amando ao próximo, como Ele disse”, diz.

Madeira podre
A professora de biologia Ana Kelly Moneta alegra-se ao lembrar como tudo aconteceu. “A madeira estava podre e quebrada, abrindo o telhado. Meu pai, que entende disso, entrou na roda e também ajudou com essa parte. As paredes estavam prejudicando a respiração deles com o mofo, tinha muita coisa que estava fazendo mal. Mas o mais emocionante, para mim, foi ver a união de toda essa turma, das várias tribos da escola, os playboys com os nerds, cada um fazendo sua parte, e provar que eles podem fazer a diferença”, comemora.

Ana Kelly conta que o casal será “adotado” pelos alunos. Uma agenda foi elaborada para que, a cada semana dois estudantes façam uma visita, sempre zelando pelo bem-estar deles. Agora, os estudantes tentam buscar mais ajuda para realizar outro sonho de seu Antônio, o de voltar a enxergar.

Pedro Alves de Oliveira, 17 anos, ressalta que o mais importante é ter ajudado alguém, sem nem sequer pensar no título da gincana. “Me emocionei quando eles voltaram para casa. Parecia que nunca tinham sido tão bem tratados.” Além da reforma, foram doados alguns móveis para deixar o local mais aconchegante. O jardim ficou limpo, com banquinhos e paredes pintadas.

A aluna Ythala Gabriella,16 anos, ficou feliz com o resultado do trabalho. “No início, meus pais não gostaram muito da ideia de gincana, da brincadeira. Mas, quando viram o que estávamos fazendo, também foram ajudar na reforma, o que deixou todos nós mais próximos”, ressalta.

Quase pioneiros
Dona Ricarda e seu Antônio se conheceram no Rio de Janeiro, terra natal de ambos. Apaixonaram-se e tiveram três filhos. Em função do trabalho de Antônio, que viajava muito com a empresa prestando serviços de pedreiro, mudaram-se para Brasília em 1963. Desde aquela época, moram no Gama. Antônio era mais independente. Gostava de andar pela cidade que ajudou a construir, às vezes carregando algum neto. Ricarda trabalhava como dona de casa, lavando e passando roupa para famílias e às vezes trabalhando como parteira. Além disso, ficava sempre de olho nos filhos.

O casal perdeu um filho e um neto, pouco antes de Antônio machucar o pé. Como homem teimoso que era, não cuidou do ferimento e acabou tendo de amputar a perna em 2006, devido a complicações causadas pela diabetes. A mutilação derrubou sua autoestima. Vanda, a filha mais velha do casal, lembra que o pai gostava de cozinhar e de caminhar pelas ruas. Ela mora no mesmo terreno, com o marido e o filho. Lá também vivem uma neta de Ricarda e Antônio, com o marido e três filhos. “Uma tempestade arrancou o telhado deles. Eu e meu irmão nos juntamos e compramos material para consertar, mas, como não tínhamos muita noção, ficou malfeito o acabamento, o que acabou apodrecendo a madeira”, relata.

“Eles sempre nos deram muito carinho, mesmo faltando algumas coisas às vezes, o que é normal na nossa condição. Mas temos muito amor por eles”, disse a primogênita, que nega a situação de abandono em que seus pais foram encontrados. Antônio se emociona ao falar da situação: “Nós temos muita fé. Só com muita fé mesmo para a gente conseguir aguentar”. Ricarda, assim como o marido, espera que a situação melhore e reza todos os dias para nada de ruim acontecer. Entende que a fé é que não pode faltar.

EU ESTUDANTE,
Leia mais sobre educação no site www.correiobraziliense.com.br/euestudante

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Projeto determina seleção de estagiários apenas por prova


Nenhum órgão ou entidade da administração pública poderá contratar estagiários sem realizar prévia seleção pública de provas amplamente convocada por edital. O ingresso deverá ainda obedecer rigorosamente à ordem de classificação dos candidatos, como previsto em projeto da senadora Marinor Brito (PSol-PA) que deve ser examinado pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) na reunião desta terça-feira (16).
A intenção da autora é proteger os processos de escolha de estagiários da prática da indicação pessoal. Na justificação da proposta, ela destaca que a impessoalidade e a publicidade estão entre os princípios constitucionais que devem ser seguidos pela administração pública. Para Marinor, isso vale para todas as atividades, inclusive a seleção de estagiários.
Redes de contatos
O relator, senador João Alberto Souza (PMDB-MA), defende a aprovação da matéria. No relatório, ele afirma que o projeto é vantajoso do ponto de vista da educação ao privilegiar o esforço individual e a meritocracia. Como observa, as indicações pessoas costumam beneficiar os detentores de maior capital social e redes de contato na administração pública.
Pelo projeto, a seleção pública por provas deve ser adotada pela administração pública direta, autarquias e fundações do Executivo, Legislativo e Judiciário, inclusive dos estados e dos municípios. A regulamentação está sendo sugerida por meio da inclusão de novo dispositivo no texto da Lei do Estágio, a Lei 11.788, de 2008, que não tratou do tema.
Nepotismo e clientela
Num avanço em relação às práticas personalistas, muitos segmentos da administração pública já vêm adotando a seleção por provas como regra habitual para admissão de estagiários, a exemplo do Ministério Público e da Advocacia Geral da União. No entanto, ainda são comuns contratações permeadas por práticas clientelistas (em troca de votos) ou por nepotismo (favorecimento de parentes de dirigentes ou de servidores), conforme indicam denúncias na imprensa.
O projeto de Marinor seguirá depois para exame na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), onde receberá decisão terminativa . Se aprovado, passara a tramitar na Câmara dos Deputados.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Boa Notícia: Ibram quer incorporar espaço entre as quadras 212 e 213 ao Olhos d'Água


A área de nascentes reivindicada pela comunidade será vistoriada pelo Ibram: quando concluído, o parecer seguirá para o governador do DF (Bruno Peres/CB/D.A Press )
A área de nascentes reivindicada pela comunidade será vistoriada pelo Ibram: quando concluído, o parecer seguirá para o governador do DF
O Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Distrito Federal (Ibram) estuda transformar um espaço de 16,8 mil metros quadrados, localizado entre as quadras 212 e 213 Norte, em Área de Preservação Permamente (APP). Caso o projeto se concretize, o terreno será incorporado ao Parque Olhos d’Água, e as nascentes da Lagoa do Sapo, localizada entre os terrenos, preservadas. Mas, para conseguir a mudança, o Ibram precisa que o Governo do Distrito Federal (GDF) publique um decreto para aumentar a poligonal da reserva. O instituto também terá de negociar com a Universidade de Brasília (UnB) e com o empresário Carlos Habib Chater, donos de projeções no lugar em questão. 

Segundo o diretor de Administração de Parques do Ibram, João Carlos Costa Oliveira, o instituto recebeu uma demanda da comunidade e abriu um processo para ampliar a reserva do Olhos D’Água. “A Superintendência de Gestão de Áreas Protegidas do Ibram emitiu um parecer no sentido de ampliar o parque. Vamos realizar uma nova vistoria na área e a conclusão das pesquisas vai indicar se o local tem potencial para ser incorporado à reserva”, explicou. No fim desses procedimentos legais, um documento será encaminhado para o governador do DF, Agnelo Queiroz.

O imbróglio na região surgiu no ano passado, quando o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), com base em um relatório técnico do Ibram, recomendou à Administração de Brasília que não emitisse alvará para obras por se tratar de uma zona ambiental sensível e de importância para o abastecimento da bacia hidrográfica do Paranoá e da Lagoa do Sapo, no Olhos D’Água. Do espaço de 16,8 mil metros quadrados, 6,8 mil foram licitados pela Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) em 2000 e adquiridos por Chater por R$ 1,9 milhão. A Universidade de Brasília (UnB) também tem três projeções no local para construção de prédios residenciais.

De acordo com o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, a universidade ainda não foi consultada sobre o projeto do Ibram, mas sabe da demanda da comunidade. Segundo José Geraldo, o pedido dos moradores da Asa Norte faz sentido sob a perspectiva ecológica, mas a UnB precisa manter seu patrimônio para que a instituição continue a se desenvolver de forma sustentável. 

“A questão seria como equilibrar esses dois princípios. Precisaríamos ter uma melhor compreensão das propostas e trazê-las para os conselhos deliberativos estabelecerem um consenso sobre o tema. Pessoalmente, não sou refratário à ideia, mas tenho o dever de preservar o interesse da universidade”, completou. Na opinião do reitor, a concessão de outros terrenos para a universidade seria uma alternativa para resolver o problema. A reportagem também tentou entrar em contato por telefone com o empresário Carlos Habib Chater, mas, até o fechamento desta edição, não conseguiu localizá-lo.

Engajamento
Moradores da Asa Norte e frequentadores do Olhos d’Água também estão mobilizados para tentar convencer o GDF a ampliar a área de preservação da reserva. Morador da 215 Norte, Ricardo Montalvão faz parte do programa Adote uma Nascente e é coordenador da Associação Brasiliense pela Qualidade de Vida (Abravida), que já colheu mais de 5 mil assinaturas em defesa das minas que afloram entre as quadras 212 e 213 Norte. “Não podemos deixar as nascentes morrerem. Um dos objetivos no decreto de criação da reserva é preservar as minas d’água. A riqueza hídrica desse local é importante para a qualidade de vida da população”, alertou. 

O representante comercial Beto Farias, 54 anos, mora na Asa Norte há 40 e frequenta o Olhos d’Água desde a criação. Farias espera que a área de preservação seja ampliada, e as nascentes, conservadas. “Quando era criança, vinha de bicicleta para nadar no córrego que se forma com as minas d’água. O governo precisa preservar esse local porque faz parte da vida dos moradores da Asa Norte. Seria um absurdo perder mais uma nascente para que um prédio fosse construído.”



Fonte: CorreioWeb

Oportunidade: Nos próximos quatro anos, 40% dos empregados da União devem se aposentar

O governo tm um enorme problema nas mãos para resolver nos próximos quatro anos. Até 2015, cerca de 40% do atual 1,1 milhão de servidores públicos federais estarão em condições de se aposentar. Serão 452 mil trabalhadores a menos nos órgãos públicos. Hoje, revelam dados do Ministério do Planejamento, ao menos 80 mil funcionários já podem pendurar as chuteiras. Essa realidade representa uma verdadeira bomba-relógio para a administração pública, que terá de arcar com os custos das substituições e das aposentadorias. Mas traz ótimas expectativas para os interessados em ingressar no funcionalismo por meio de concursos públicos. 




Para a alegria dos concurseiros, a notícia se soma à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) da última quarta-feira, segundo a qual o governo é obrigado a nomear, durante a validade da seleção, todos os aprovados dentro do número de vagas previstas em edital. Estima-se que, em todo o Brasil, ao menos 80 mil candidatos aguardem essa convocação. Desses, 40 mil seriam apenas na esfera federal.Um dos órgãos que mais precisarão de trabalhadores é o Banco Central, hoje com 4.689 servidores em atividade. Até o fim deste ano, 1.908 funcionários poderão requerer a aposentadoria integral. Em 2013, esse número chegará a 2.425, o que representa 51,7% do total de ativos. O quadro é tão preocupante, especialmente em meio a uma crise econômica internacional, que, desde a sua posse em janeiro, o presidente do BC, Alexandre Tombini, destaca a necessidade de renovação do corpo funcional. Há quatro meses, o diretor de Administração, Altamir Lopes, se reuniu com o deputado Pauderney Avelino (DEM-AM) para falar sobre a dificuldade que a escassez de pessoal traz para a fiscalização do sistema financeiro. “Há um risco sistêmico. O banco não tem feito o seu dever de casa. A nossa ideia, inclusive, é apresentar um projeto referente à reestruturação do quadro do BC”, afirma Avelino. Em 2009, o BC realizou concurso com 500 vagas. A instituição já concluiu o preenchimento desses cargos e, há dois meses, recebeu autorização do Ministério do Planejamento para convocar outra turma de aprovados, com 83 analistas e 37 técnicos. “Nosso pedido é para uma ampliação prevista em lei de 50% referente ao número inicial de vagas, que representaria 250 oportunidades. Queremos chamar os concursados até esgotar as possibilidades desse processo seletivo, que vence em junho de 2012”, informou o BC por meio de sua assessoria.O Senado também se prepara para lidar com o problema. Lá, 1.457 servidores devem se aposentar nos próximos quatro anos. Até o fim de 2011, ao menos 300 funcionários devem requerer o benefício. Para tentar recompor esse quadro, a Casa planeja lançar, até o mês que vem, concurso público para cargos de níveis médio e superior, com salários entre R$ 13,2 mil e R$ 22,6 mil. Na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), neste ano, 13 pessoas vão poder parar de trabalhar. Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), dos 410 efetivos, 42 já entraram em processo de aposentadoria.O Ministério do Planejamento informou que está atento ao problema e, a exemplo da reestruturação de carreiras feita na gestão Lula, pretende realizar concursos ao longo dos anos para substituir os aposentados. Além disso, ressaltou que muitos funcionários têm optado por ficar no funcionalismo, recebendo gratificações, até os 70 anos, quando são obrigados a sair. Pelas regras atuais, o homem pode ter a aposentadoria integral aos 60 anos de idade e 35 de contribuição e a mulher, aos 55 anos e 30 de contribuição. Hoje, a idade média dos funcionários federais é de 46 anos. O órgão que apresenta o quadro mais envelhecido é o Ministério da Agricultura, onde os servidores têm, em média, 52 anos. Depois dele, destacam-se os ministérios da Ciência e Tecnologia (50) e da Integração (50).Riscos reaisNa visão de especialistas, os riscos para as contas públicas são reais. O primeiro desafio é não quebrar a Previdência. Os números mostram que, atualmente, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário reúnem 545.651 aposentados e 407.586 pensionistas. Nos oito anos do governo Lula, a despesa anual da União com os inativos saltou 131,6%, de R$ 31,628 bilhões para R$ 73,264 bilhões. “O problema é que o nosso regime é muito generoso com o servidor. Ele recebe aposentadoria integral para o resto da vida. A situação do quadro de pessoal do funcionalismo vai trazer um aumento rápido para os gastos do governo”, analisa o consultor Raul Velloso. Hoje, o deficit na Previdência do setor público supera R$ 52 bilhões por ano, beneficiando apenas 953 mil servidores. O rombo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), responsável pelos desembolsos a 24 milhões de pessoas, é R$ 10 bilhões menor. “A reforma é inevitável. Dizem que o melhor momento para isso são os tempos de bonança. Mas aí a agenda pública se direciona para o que fazer com o progresso. Talvez precisemos de uma crise para criar as condições para uma mudança”, afirma Marlos Lima, diretor da Cenários Prospectivos Consultoria.Diante de um sistema prestes a explodir, a presidente Dilma Rousseff já deu ordens para o ministro da Previdência, Garibaldi Alves Filho, tocar o Projeto de Lei nº 1.992, que cria a previdência complementar do servidor federal. A ideia é que, assim como ocorre no INSS, para ter uma aposentadoria acima de um teto específico, os funcionários tenham que investir em um fundo. Se o texto for aprovado, a nova regra só valerá para os trabalhadores que entrarem nos órgãos após a implementação das mudanças. Impopular, a proposta esbarra nas críticas das centrais sindicais. Na última quarta-feira, a pressão feita por centenas de servidores foi tão grande que a Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados tirou o tema da pauta. Meiriane Nunes Amaro, consultora legislativa do Senado especializada em previdência, alerta, porém, que, quanto mais demorar a aprovação desse projeto, pior será para o governo. “Se nada acontecer, o poder público vai perder a oportunidade de jogar os novos servidores, que vão repor 40% do quadro, nas regras, o que só adiará a solução para a Previdência”, diz.
Fonte: CorreioWeb

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Comissão aprova prazo maior de prescrição para crime sexual contra criança



Eros Biondini
Eros Biondini afirma que mudança vai impedir a impunidade dos agressores.
A Comissão de Seguridade Social e Família aprovou na quarta-feira (10) o projeto de lei 6719/09, daCPI da Pedofilia, que altera o prazo de prescrição dos crimes sexuais praticados contra crianças e adolescentes. Com isso, as vítimas de abuso ganham mais tempo para denunciar seus agressores.
Pelo texto, a prescrição do crime começará a contar apenas a partir da data em que a vítima completa 18 anos, a não ser que já tenha sido proposta ação penal ou a ação já tenha transitado em julgado.
Atualmente, o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40) determina, como regra geral, a contagem da prescrição a partir do dia do crime. Depois de prescrito o crime, não há possibilidade de punir o agressor.
A proposta foi batizada de Lei Joanna Maranhão, em homenagem à nadadora brasileira que denunciou ter sido abusada pelo treinador quando criança. O crime já havia sido prescrito quando a história veio a público e o treinador não pôde ser processado.
Para o relator da proposta, deputado Eros Biondini (PTB-MG), a medida vai impedir a impunidade dos agressores. "Muitas vezes, esse crime prescreve seis meses depois que a vítima atinge a maioridade. Mas é justamente depois de seis meses, um ano, dois anos depois de atingida essa idade, quando a pessoa adquiriu maturidade, que ela tem a coragem de denunciar", analisou.
No caso de um estupro contra uma criança de oito anos, por exemplo, o crime só prescreveria quando a vítima completasse 38 anos, pela proposta. Hoje, a possibilidade de punição do agressor se extinguiria quando a vítima completasse 28 anos.
Tramitação
A proposta será enviada para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania para análise de mérito e de constitucionalidade. Depois, será votada em Plenário.

Íntegra da proposta:

Reportagem - Carol Siqueira
Edição – Daniella Cronemberger

Se BRB fosse Banco do Centro-Oeste?


O deputado federal Júlio Campos (DEM) propõe a conversão do Banco de Brasília para Banco do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Bandeco). Para o deputado, a readequação do BRB seria mais rápida que recriar o Bandeco.
Da Redação do Alô

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

TCDF SUSPENDE LICITAÇÃO DE TERRENOS DE TEMPLOS RELIGIOSOS


O Tribunal de Contas do Distrito Federal suspendeu o edital da concorrência pública (nº 7/2011) da Terracap, para a alienação de unidades imobiliárias ocupadas por entidades religiosas ou de assistência social. A abertura da licitação seria nesta quinta-feira, 11 de agosto de 2011. O valor estava estimado emR$ 10.804.400,00. O Tribunal determinou que a Terracap encaminhasse os laudos de avaliação e vistoria, bem como as fichas cadastrais das unidades licitadas em até cinco dias.

Segundo entendimento do TCDF, é necessário verificar se os valores da terra nua apurados nos laudos de avaliação, realizados em  31 de dezembro de 2006, foram corrigidos monetariamente até a data da licitação.

O edital previa a licitação de 19 imóveis nas regiões de Brasília, Lago Norte, Núcleo Bandeirante e Riacho Fundo. Há, por exemplo, um terreno na Quadra 914 Sul com 5.880 metros quadrados avaliado por R$ 2.127.500,00. Outro no Lago Norte (Taquari) de 1.107 metros quadrados avaliado por R$ 161.300,00. O valor médio dos terrenos está na ordem de R$ 570 mil. “Se essa média for mantida e multiplicada pelos 1800 imóveis que a Terracap pretende legalizar, chega-se a significativa quantia de R$ 1 bilhão, demonstrando-se pertinente a solicitação dos Laudos elaborados para que, desde já, seja feita  análise dos procedimentos realizados pela Companhia e, se for o caso, que se determine as medidas corretivas”, explicou o Ministério Público junto ao TCDF, conforme destacado no relatório do Conselheiro Inácio Magalhães.
Fonte: TCDF

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pesquisa aponta que jovens negros são maiores vítimas da violência no Brasil


Apresentada na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, a pesquisa Mapa da Violência 2011, elaborada pelo Instituto Sangari, aponta que os crimes no Brasil são praticados principalmente contra jovens negros.
Segundo o diretor de Pesquisa do Sangari, sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, 73,6% das mortes entre jovens são provocadas pelas chamadas causas externas (homicídios, acidentes ou suicídio), com destaque para os homicídios (39,7% do total de mortes). “A história da violência no Brasil é a história de extermínio da sua juventude.” As mortes por essas razões nas demais faixas etárias não passam de 9,9%.
A juventude é definida no mapa como o período entre 15 e 24 anos de idade, conforme a Organização das Nações Unidas (ONU). Para o governo brasileiro, são consideradas jovens as pessoas de 15 a 29 anos.
De acordo com dados do mapa, a taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes em 2008 foi de 26,4 para a população em geral e 50 para jovens. “Mais de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes significa epidemia de violência. Todos os estados do Brasil estão em situação epidêmica”, afirmou Júlio Jacobo. Segundo o sociólogo, nos últimos anos houve uma disseminação da violência para fora dos grandes centros urbanos e uma interiorização do problema.
Em 2002, 30 em cada 100 mil negros foram assassinados, e o número foi para 33,6 em 2008. Entre a população branca, os homicídios caíram de 20,6 por 100 mil para 15,9. Entre os jovens brancos, a taxa teve queda de 30% (de 39,3 para 30,2 por 100 mil) de 2002 a 2008, e entre os jovens negros houve aumento de 13% (de 62,4 para 70,6) no mesmo período.
Veja os dados completos do Mapa da Violência 2011.
Negligência
Para o secretário-executivo da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, Mário Theodoro, a violência contra o jovem negro é parte de um quadro maior de negligência em relação a essa parcela da população. “A maioria dos analfabetos, de jovens fora da escola, de desassistidos na saúde, é formada por negros. Quando vemos o aumento da violência, vemos a população negra morrendo cada vez mais no País”, afirmou.
Na opinião do deputado Alessandro Molon (PT-RJ), um dos autores do requerimento da audiência, a população jovem ficou esquecida pelo Poder Público. “Temos de discutir uma política nacional para a juventude que não passe só por segurança pública.”
Radiografia do crime
A secretária Nacional de Segurança Pública, Regina Maria Miki, disse que o governo federal não conta com uma radiografia atual da situação do crime no País. Ela considerou lastimáveis as dificuldades enfrentadas na elaboração do Mapa da Violência 2011, como a falta de informações dos dois últimos anos e a inexistência de um sistema de dados nacional sobre segurança pública.
Como não existe um banco de dados central com essas informações, o relatório teve que se basear nas certidões de óbito do Ministério da Saúde. “Estamos tentando implementar esse sistema nacional, pois só assim teremos um diagnóstico preciso para orientar as políticas públicas”, disse.
Lula Lopes
Dep. Fernando Francischini (PSDB-PR)
Francischini reforçou a necessidade de o governo ter um instrumento para medir com eficácia a violência.
O futuro sistema de informações sobre segurança pública do governo deve reunir em tempo real dados sobre a violência em todos os estados. Atualmente, segundo a secretária, os estados não conseguem repassar para o governo federal todas as informações de boletins de ocorrência. “Precisamos de dados atualizados para a política funcionar”, explicou.
Júlio Jacobo também defendeu mais disponibilidade de dados. “Não temos o foco de segurança se não tivermos um bom sistema de informações.” Segundo ele, a transparência nos dados de segurança pública em alguns estados tem ajudado a responsabilização e consequente queda nos dados de violência.
Segundo o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), que também solicitou o debate, o governo precisa ter um instrumento de medição para balizar e analisar os objetivos do setor de segurança pública a fim de melhor destinar recursos para combater a violência.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Marcos Rossi