segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Do R$ 1 bilhão arrecadado, Detran investe apenas 2% em educação no trânsito


Cleiton (E), com os pais, Waldomiro e Tereza, filhos e sobrinha: dor pela perda da mulher e da irmã na DF-001 (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Cleiton (E), com os pais, Waldomiro e Tereza, filhos e sobrinha: dor pela perda da mulher e da irmã na DF-001



Ser professor é uma entrega. Pavimentar os degraus para o crescimento dos outros exige paciência. Trabalhar muito e, às vezes, ganhar pouco. Não é para todos. Cinco moças entre 22 e 29 anos escolheram essa vida. Cursavam o primeiro semestre de pedagogia. Formariam-se mestres de crianças. Mas um acidente as tirou desse caminho, justamente quando iam para a aula. Deigiane Fleury, 25 anos, Cleitiane Fleury, 24, Márcia Cristina Costa, 29, Bruna Carla de Oliveira, 22 e Magna Nascimento, 29, estavam juntas quando sofreram um desastre. Nenhuma delas sobreviveu à “curva da morte”, na altura do Km 45 da DF-001, entre a casa delas, em Brazlândia, e a faculdade, em Taguatinga.

Desde ontem e até quarta-feira, o Correio publica uma série de reportagens que conta o drama de quem perdeu pessoas queridas em desastres nas vias do DF. São órfãos do asfalto. Os nomes das 449 vítimas serão publicados no período.

A tragédia na DF-001, ocorrida em maio, fez órfãos de suas mães cinco crianças pequenas. Deigiane deixou Gabriela, 5 anos, e Victor Hugo, 2. Ela dirigia o Corsa branco que ganhou do marido, Cleiton Fleury, 29, quando perdeu o controle do carro, rodou e bateu de frente com uma Ford Ranger. Depois, o veículo capotou. Na faculdade, uma colega ficou preocupada com a demora das amigas. Ela costumava pegar carona. Naquele dia, foi de ônibus. A colega telefonou para a casa de Deigiane e deixou o marido dela apreensivo. Cleiton teve um pressentimento. Ligou para o celular da mulher. Nada. Tentou falar com a irmã, Cleitiane, e ninguém atendeu. O mesmo silêncio com o número de Márcia, mãe de Laura, 1 ano, sua prima. Cleiton, então, decidiu seguir o percurso que Deigiane faria até a faculdade. No meio do caminho, tremeu. Largou o carro no acostamento e correu para a área interditada. Havia reconhecido o Corsa, com as rodas para cima. 

Deigiane estava morta. E também Cleitiane. Sentada ao lado da cunhada, foi quem mais se machucou. A caminhonete lhe acertou em cheio. Três mulheres acabaram arremessadas para fora do carro. Estavam sem o cinto de segurança no banco de trás. “Levantei a lona preta e reconheci a Márcia”, conta Cleiton. Prima dele e de Cleitiane, ela havia trancado a faculdade e voltou naquele semestre por incentivo das amigas. Durante o período, as três estudantes da mesma família conheceram Magna e Bruna, mãe de Leandro, 4 anos. Os projetos em comum aproximaram as jovens. Aprender a profissão exigia das moças menos tempo com os próprios filhos.

Morte aos 25 anos: Deigiane Fleury deixou dois filhos e um marido (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Morte aos 25 anos: Deigiane Fleury deixou dois filhos e um marido
Deigiane tinha cabelos longos e olhos claros. Encantou Cleiton numa festa de Folia de Reis. Em seis meses, estavam casados. O marido achava que ela tinha urgência na vida. Pressa. “Parecia saber que viveria pouco. Não se programava para o futuro”, conta. Lecionar no jardim de infância seria natural para quem era tão apegada às suas duas crianças. No segundo filho, teve uma gestação difícil. A mãe dela pegou meningite e Deigiane não podia visitá-la. O marido ia ao hospital, filmava a sogra e exibia para a mulher.

Quando Victor Hugo nasceu, a moça fez de tudo para amamentar. Mas o peito endureceu, o leite empedrou. Era uma reação à morte da mãe. Agora, depois do desastre no asfalto, é o garotinho quem sente a ausência. “Perdi muito, mas posso um dia, se Deus me mandar, amar uma outra mulher. Para o meu filho, de 2 anos, é uma perda imensurável. Mãe não tem substituta”, diz Cleiton. Por causa do acidente, a  mãe do comerciante, Tereza Peixoto, foi quem assumiu as vezes de mãe. Ela cuida dos filhos de Deigiane e também da educação da outra neta, Heloísa, filha de Cleitiane.

Mesmo cinco estudantes que se preparavam para ensinar crianças, caíram na armadilha da imprudência. Pelo menos três das cinco moças não usavam o cinto. Todas morreram, uma demonstração de que mesmo com o aparato de segurança, a capotagem poderia ser fatal. Mas persistirá o que para os especialistas no assunto é mandamento. O uso do equipamento diminui riscos.

"Máquina perigosa"

O artigo 74 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece que a educação para o trânsito é direito de todos e dever do Poder Público. Para o diretor da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues, o Estado não prioriza as campanhas destinadas a alertar às crianças, aos futuros motoristas e aos adultos sobre os riscos, por exemplo, de dispensar o cinto de segurança.

Já se tornou um hábito usar o equipamento para quem se senta nos bancos da frente. Quem vai atrás, no entanto, acha que está protegido. “Transportar passageiros sem cinto é um risco para todos os que estão no carro, uma máquina sobre rodas intensamente perigosa”, explica. No impacto de uma batida, pessoas são arremessadas e podem atingir outras. “É o efeito estilingue”, define Ana Paula Pacheco, gerente de Estatística de Acidentes de Trânsito do Detran.

Esse tipo de cuidado precisa ser explicado para os cidadãos, desde a primeira infância. “Os governos estão bobeando. Há campanhas institucionais contra a dengue, uma doença que mata 700 pessoas por ano, mas não parece tão preocupados com o trânsito”, reclama Dirceu Rodrigues. “Estamos diante de uma doença epidêmica negligenciada pelo Estado”, afirma.

No DF, a realidade não é diferente. Nos últimos quatro anos, o Detran arrecadou quase R$ 1 bilhão com multas e taxas cobradas de 1,2 milhão de veículos em circulação. Foram R$ 930 milhões. Nesse mesmo período, o investimento em educação de trânsito foi irrisório: apenas 2% do dinheiro que entrou no caixa do órgão.

Os especialistas ensinam que alguns conceitos precisam ser incutidos nas crianças e reforçados na adolescência, para que sejam formados novos motoristas e passageiros aptos a enfrentar as ruas com menos riscos. O acidente na DF-001 acabou com os planos de cinco moças, fez cinco crianças órfãs e expôs tragicamente como ainda há muito a percorrer em busca de paz nas ruas e nas rodovias do país.

Fonte: CorreioWeb


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